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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Falta de antibióticos causa mortes em Instituto de Cardiologia no Rio

   Médicos e funcionários protestam na porta do Iecac

A falta de antibióticos para tratamento de infecções foi responsável por mais da metade das mortes ocorridas no último semestre no Instituto de Cardiologia Aluizio de Castro (Iecac), no Humaitá, na Zona Sul do Rio, de acordo com médicos da unidade. Nos relatórios da comissão de óbitos, consta que esse foi o motivo de 30 das 59 mortes registradas entre julho e novembro. Na manhã desta quarta-feira, funcionários e médicos fizeram um protesto na porta do hospital, que é referência em tratamento de cardiologia na rede estadual. Segundo eles, medicamentos fora da validade já são rotina na unidade, bem como a falta de materiais básicos, como gaze e agulhas.
— A Saúde do Rio vive hoje um processo genocida. Estamos enfrentando uma situação de aumento de mortalidade em quase toda a rede do estado. O Iecac, lamentavelmente, não foi poupado da crise do estado. A falta de medicamentos tem elevado o índice de óbitos por infecção — alerta Jorge Darze, diretor da Federação Nacional dos Médicos e membro do Sindicato dos Médicos do Rio.

Jorge Darze, diretor da Federação Nacional dos Médicos
Jorge Darze, diretor da Federação Nacional dos Médicos Foto: Fabiano Rocha

De acordo com dados do Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), em novembro do ano passado os óbitos causados por infecção generalizada aumentaram em 61,5% no Iecac, em relação aos meses anteriores.
— Os médicos têm que conviver com condições que fogem do que é normal e adequado no atendimento ao paciente. O problema tem a ver com a crise do estado, mas os pacientes não podem pagar a conta — protesta o presidente do Cremerj, Pablo Vazquez.
Uma médica da unidade, que pede para não ser identificada, diz que o hospital deveria ter de cinco a dez tipos diferentes de antibióticos, já que os germes e bactérias variam dependendo da infecção.
— Hoje só temos um tipo de antibiótico na farmácia. Amanhã, talvez não tenhamos nenhum — diz.

Lígia, viúva de paciente que morreu após infecção
Lígia, viúva de paciente que morreu após infecção Foto: Fabiano Rocha

José Carlos Oliveira, de 65 anos, foi uma das vítimas da negligência. Depois de esperar 14 anos por uma cirurgia cardíaca, ele conseguiu uma vaga no Iecac no início de novembro, mas morreu no dia 27 de dezembro, após contrair infecção.
— Meu marido entrou aqui ativo e com saúde. Ele só tinha o problema de coração, e achou que sairia daqui curado — emociona-se a viúva, Ligia Candeia dos Santos Santana, de 59 anos: — A infecção aconteceu dentro do hospital. Um mês depois da cirurgia, observei secreção saindo da cicatriz dele. Disseram que estava sob controle, com dois antibióticos, mas a infecção sempre voltava. Meu marido foi entubado três vezes e por duas vezes tiraram líquido dos seus pulmões. Foi uma agonia para a família.
A direção do Instituto Estadual de Cardiologia Aloysio de Castro informou, por nota enviada pela Secretaria estadual de Saúde, que em 2016 não foi registrado nenhum óbito por infecção hospitalar na unidade. "Os dados de indicadores do Iecac apontam que a taxa de infecção hospitalar de 2016 diminuiu em relação ao ano passado, reduzindo de 7,1% em 2015, para 6%, enquanto a letalidade por infecção foi de 0%.
A Fundação Saúde esclarece que não procedem as informações quanto à falta de insumos e medicamentos no Iecac e acrescenta que o abastecimento da unidade tem sido regularizado com compras recentes".

Manifestação contra o abandono do Iecac
Manifestação contra o abandono do Iecac Foto: Fabiano Rocha

A secretaria de Saúde informou ainda que o paciente José Carlos Oliveira começou a ser acompanhado pelo Iecac em 2001, apresentando, além de problemas cardíacos, hipertensão arterial e obesidade. "O paciente foi internado em 02/11/2016, após relato de dor torácica, tendo passado por procedimento cirúrgico. Após o procedimento, o paciente foi encaminhado ao CTI, como ocorre com todo paciente submetido à cirurgia cardíaca, tendo recebido todos os cuidados adequados para o seu quadro clínico. Porém, tratava-se de um paciente que apresentou piora em suas condições de saúde ao longo dos anos tendo, inclusive, desenvolvido diabetes do tipo 2. Durante o pós-operatório, o paciente apresentou problemas renais e respiratórios, sendo tratado com medicação adequada ao quadro, incluindo antibióticos. Apesar dos cuidados, o quadro do paciente se agravou nos dias seguintes, até o óbito, ocorrido no dia 26/12. Conforme consta na certidão de óbito, foram as causas da morte, além de sepse pulmonar, os efeitos de ventilação mecânica prolongada, fibrilação arterial, revascularização do miocárdio, hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus. Portanto, não procede a informação de que o paciente tenha morrido por falta de antibióticos", diz a nota.
fonte:http://extra.globo.com/
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