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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Creio porque é absurdo Aquilo em que se crê não se alcança mediante o processo dedutivo da razão. Mas não é necessariamente desprovido de sentido e inteligência Por Ed René Kivitz*

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“O FILHO DE DEUS MORREU, O QUE É CRÍVEL JUSTAMENTE POR SER INEPTO; E RESSUSCITOU DO SEPULCRO, O QUE É CERTO PORQUE É IMPOSSÍVEL”. Dessas duas declarações de Tertuliano, teólogo e apologista cristão do século III, surge a famosa expressão “Creio porque é absurdo”, do latim “credo quia absurdum”, que se insere no debate a respeito da relação entre fé e razão.
As declarações de Tertuliano o colocam entre os fideístas, que afirmam que a experiência da fé escapa e transcende a lógica racional. Crer substitui o entender: se fosse racional, eu entenderia; porque é mistério, eu creio. A escola de pensamento fideísta foi qualificada como uma forma de irracionalismo, onde as crenças religiosas, consideradas absurdas, são tratadas como superstições desprovidas de sentido e associadas à ignorância. Crer em coisas absurdas é de fato uma irracionalidade. Mas o absurdo sugerido por Tertuliano não se refere necessariamente ao objeto da fé, como se quisesse dizer “aquilo em que creio é absurdo”. Absurdo é aquilo que está além dos limites do entendimento, do apreendido pela investigação racional, apropriado e comprovado pelo método científico. O objeto da fé é supra racional, mas não necessariamente irracional. Aquilo em que se crê não se alcança mediante o processo dedutivo da razão, mas não é necessariamente desprovido de sentido e inteligência.
Mais adiante, já no século IV ou V, alguém assinou sua obra como Dionísio Areopagita, supostamente um convertido no discurso do apóstolo Paulo em Atenas, e por isso chamado Pseudo Dionísio. Ele acreditava que, por sua natureza, Deus é impossível de ser nomeado adequadamente. Nomear, ou afirmar, é estabelecer a relação exata entre o que é descrito e a realidade. O que não pode ser nomeado implica distanciamento: Deus está além de todo nome, é anônimo. Deus ultrapassa o “universo das coisas”, é impensável e, portanto, indizível.Deus não é uma coisa que existe ao lado de tantas outras coisas. Deus é transcendente. Por isso, Deus não é uma realidade evidente. Deus é não detectável, não demonstrável. Mas Deus também está situado no nível profundo da interioridade humana. Assim, Deus é também imanente.
Sendo transcendente, Deus é objeto de fé, não de ciência. A experiência da fé é da ordem mística, não da inteligência. Sendo também imanente, Deus exige consciência e relação.
Do ponto de vista místico, “no ser humano há qualquer coisa ainda mais profunda do que o ego consciente”, diz Tomás Halík, teólogo tcheco nosso contemporâneo. A noção de que é possível ao homem refletir sobre si mesmo, seu próprio ego, sugere a possibilidade de ocupar outro lugar – ainda que em si mesmo. Como sugere o filósofo Maurice Blondel, “no nosso pensamento há sempre mais qualquer coisa do que o nosso pensamento”. Deus é referido como aquilo em nós “mais profundo que o ego consciente” e “qualquer coisa além do nosso pensamento”. Nas palavras de Santo Agostinho, “Deus me é mais íntimo do que meu próprio íntimo”: “intimior intimo meu intimior meipso” – mais íntimo a mim do que eu a mim mesmo.
Essas compreensões todas, entrelaçadas, formam um todo de sentido que pode ser resumido na interpretação que Mestre Eckhart, frade dominicano da idade média, faz da expressão “homem interior”, do apóstolo Paulo. Eckhart acreditava que o homem exterior tem um Deus exterior, e o homem interior tem um Deus interior. O homem exterior é escravo do mundo das coisas, e quer sempre alguma coisa – sendo que a maior das coisas que deseja é Deus enquanto coisa. Já o homem interior morreu para o mundo das coisas. Eckhart dizia que é preciso ter nada, saber nada, querer nada, ser nada, sabendo que esse nada é Deus – Deus além do mundo das coisas, Deus que não existe como coisa a ser possuída, sabida, conhecida, apenas vivenciada na maior profundidade do ser.
A fé e a razão acessam realidades distintas. Mas nem por isso precisam estar em oposição. O fato de ocuparem campos distintos não significa necessariamente que estão em relação de conflito irreconciliável. Anselmo de Cantuária, teólogo e filósofo cristão do século XII, disse que teologia é “fides quaerens intellectum”: fé em busca de entendimento. A busca de entendimento daquilo que é apropriado na experiência mística da fé resulta na elaboração das crenças. Em seu sentido religioso, fé é confiar em Deus, na pessoa divina, diferente das crenças, que se referem às coisas que se acredita a respeito de Deus. Não confunda fé com crenças. As crenças devem ser racionais, para que a fé não se degenere em mera superstição irracional. Mas as crenças não podem conter a totalidade da realidade apropriada na experiência mística da fé, para que o Deus que se experimenta na fé não seja reduzido a uma coisa no mundo das coisas.
fonte:http://veja.abril.com.br/complemento/pagina-aberta/creio-porque-e-absurdo.html
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