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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Trama diabólica de Joesley incluía um juiz federal, denuncia ex-advogado do grupo J&F


O advogado Willer Tomaz, que trabalhou para o grupo J&F e foi preso pela Polícia Federal na Operação Patmos, em carta enviada ao jornal ‘Folha de S.Paulo’ acusa o empresário Joesley Batista de ter armado uma armadilha contra ele e o procurador da República Angelo Goulart Villela.
Um terceiro personagem também seria vítima da mesma armadilha. O juiz federal Ricardo Leite, que ficou conhecido por ter determinado a suspensão das atividades do Instituto Lula, medida posteriormente revogada.
Joesley, que contou com a ajuda do diretor do grupo Francisco Assis e Silva, na execução do plano, visava com isso, de acordo com o advogado, agradar o procurador-geral da República, Rodrigo Janot.
‘Rifaram a mim e ao procurador Ângelo como moeda de troca para obterem os premiadíssimos benefícios de uma colaboração que jamais será confirmada’, alega Willer Tomaz.
Na carta enviada ao jornal, o advogado relata que Joesley e Assis provocaram situações como forma de criar provas de que ele e o procurador atuavam juntos, sem a anuência oficial da Procuradoria.
Willer Tomaz nega o repasse de dinheiro ao procurador.
Na versão do advogado, ele recebeu do procurador Angelo Goulart Villela uma gravação onde o MPF negociava a delação premiada do empresário Mario Celso Lopes, além de pastas de reuniões da equipe do Ministério Público Federal com o mesmo objetivo.
Esse empresário – Mario Celso Lopes – trata-se se um arqui-inimigo de Joesley e a entrega do material seria uma forma de pressioná-lo para que se antecipasse e decidisse pela delação.
De acordo com a ‘Folha’, Tomaz disse que não se constrangeu em repassar o conteúdo de caráter reservado.
‘Esse áudio não trata de vazamento de nada sigiloso. Simplesmente demonstra que, se o Joesley não fizesse a delação, seu inimigo iria fazer. O MP usa isso como prática comum quando tem duas pessoas interessadas em delatar. Ele quer a mais forte’, justificou.
Na tal conversa, Mário Celso Lopes, que havia sido preso, e os procuradores negociam bens a serem desbloqueados e provas a serem apresentadas para comprovar ações ilícitas do grupo.
O advogado e o procurador tiveram prisão decretada sob a alegação de tentativa de obstrução da Justiça, com o objetivo de proteger amigos políticos integrantes do PMDB, os senadores Romero Jucá e Renan Calheiros.
O procurador é acusado, além de obstrução de justiça, de corrupção passiva e violação de sigilo funcional.
Tomaz contesta a versão dos delatores. Diz que não há prova a corroborar o repasse de propina, que não tentou poupar ninguém de delação e que, ao contrário do que afirmou Janot, ele próprio intermediava uma conversa entre Villela e a JBS com vistas a fecharem um acordo de delação.
Em sua carta, Tomaz narra uma sucessão de episódios que, segundo ele, culminaram em sua prisão, em 18 de maio.
De acordo com Tomaz, o interesse de Joesley em entregar Villela surgiu em decorrência da informação de que o procurador era um adversário de Janot e apoiava um nome da oposição para a sua sucessão, Raquel Dodge.
A relação entre o advogado e a J&F começou em fevereiro de 2017, quando Tomaz disse ter sido procurado por Joesley para defender a Eldorado Celulose, do grupo J&F, investigada por supostas irregularidades no uso de recursos do FI-FGTS bem como na compra de ativos de fundos de pensões na Operação Greenfield.
Após assinarem o contrato, segundo Tomaz, Joesley e Assis passaram a se queixar com frequência de perseguição por parte do procurador da República Anselmo Lopes, responsável pela Operação Greenfield. "Diziam estar sendo assediados", afirma o advogado. Em dado momento, de acordo com Tomaz, os executivos e ele concordaram em abrir uma nova frente de conversa com o MPF, dada a sua relação com Villela, que atuava na Greenfield.
Quando o procurou, Villela "confidenciou-me que teria interesse pessoal na condução desse acordo, pois, caso fosse exitoso, muito contribuiria para a sua ascensão profissional".
Mas Joesley se demorava a iniciar as tratativas, dizendo-se receoso de o procurador não ter o poder necessário para fechar um acordo vantajoso. Foi então que Villela mandou Tomaz entregar a Joesley a gravação das tratativas de delação da equipe do MPF com Mário Celso Lopes, "ex-sócio e arqui-inimigo do Joesley".
Os dois se encontraram em um hangar de aeroporto e Tomaz começou a mostrar a gravação. "Ele [Joesley] ficou muito surpreso. Logo após ouvir o início, saiu da sala sob a alegação de ir falar com os pilotos para fazerem o plano de voo", descreveu o advogado. "Retornou logo em seguida, tendo ouvido [o áudio] até o final. Ele disse que estaria convencido a dar continuidade [às negociações por uma delação com Villela] e que aquela seria uma prova cabal da 'força' do dr. Ângelo."
Sem que Tomaz soubesse, Joesley gravou o advogado mostrando o áudio e entregou a gravação à Procuradoria.
Como nada avançou, Villela voltou a procurar Tomaz para alertá-lo de que a Greenfield "avançava e que a demora e indefinição dos clientes não iria suspender os trabalhos do MPF. Para demonstrar o avanço, ele me enviou algumas pautas de reuniões que tiveram".
Pouco depois, na versão do advogado, Assis finalmente pediu que Tomaz marcasse um jantar com Villela para tratarem da delação, o que ele fez, em sua casa, no dia 3 de maio.
"E noite afora fomos jantando, tomando vinho e Francisco e o dr. Ângelo conversando sobre a Greenfield, seus personagens e sobre a colaboração que se pretendia ver selada", afirma Tomaz. Ao final do jantar, diz o anfitrião, Assis deixou uma pasta com resumos e documentos para o procurador analisar a possível colaboração.
"Ao acompanhar Francisco até a porta, deparei-me com um carro preto, àquela hora da noite, quase em frente à minha porta, com duas pessoas em seu interior, uma delas me fotografando. Foi aí que levantei suspeitas de que algo de estranho estaria a ocorrer. Anotei a placa da veículo e pedi que um amigo identificasse o proprietário. Fui informado de que se tratava de placa 'fria', provavelmente sendo utilizada por veículo oficial, de algum órgão de investigação", diz Tomaz.
"A armação engendrada por Joesley e Francisco ficou clara quando, nos dias seguintes, Francisco passara a me pedir com elevada dose de insistência que promovesse um jantar entre ele e o juiz Ricardo Soares Leite", disse Tomaz, em referência ao magistrado.
da Redação
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