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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Roteirista da Globo funda igreja e propõe a “cura hétero” Newton Cannito e a Deus é Humor, a seita que dói menos

Dercy Gonçalves durante desfile da escola de samba Viradouro
Dercy Gonçalves: uma das primeiras santas canonizadas pela Deus é Humor. (Andre Arruda/VEJA)
   

Os escritores sofrem daquilo que poderíamos chamar Síndrome Deífica.
Brincam de Deus ao inventar mundos para povoá-los com criaturas de papel que muitas vezes possuem a vitalidade do barro adâmico. Não foi por acaso que Mario Vargas Llosa chamou o seu estudo sobre Cem Anos de Solidão de História de um Deicídio. Segundo o autor, os ficcionistas levariam o Complexo de Édipo às últimas consequências ao assassinar simbolicamente o Maior dos Pais e assim ficar livres para recriar o universo conforme os seus gostos e caprichos. Outros autores — Nabokov, por exemplo — usaram palavras diferentes para dizer a mesma coisa.
É por isso que não devemos estranhar quando um escritor resolve abrir uma igreja: não satisfeito em conceber apenas o gênesis imaginário de romances ou roteiros audiovisuais, acaba usando o seu talento e as suas obsessões para criar uma forma de interferir diretamente na realidade. Esses casos parecem absurdos, mas são bastante comuns, quase corriqueiros, simplesmente porque a fronteira entre literatura e teologia é mais tênue do que podemos imaginar. Afinal de contas, o que é uma religião se não um conjunto de histórias contadas com lirismo e interpretadas com empatia?
Exemplos temos aos montes.
Depois de criar o Positivismo, um dos sistemas filosóficos mais influentes do século XIX, o francês Augusto Comte fundou a Religião da Humanidade, igreja ainda presente no Brasil através de templos em atividade no Rio de Janeiro e em Porto Alegre. Outro caso famoso é o de L. Ron Hubbard, escritor fracassado de ficção científica que encontrou o sucesso ao instituir a Cientologia, religião de celebridades como Tom Cruise e John Travolta.
No Brasil, é claro, as coisas funcionam com mais deboche.
No caso da “Deus é Humor – a seita que dói menos”, parece que tudo começou com a publicação de um livro de piadas em 2012. Seu autor, Newton Cannito, já conhecido como roteirista de séries para TV e filmes de longa-metragem, ficaria ainda mais famoso ao coescrever Joia Rara, na Globo, e dirigir a comédia Magal e os Formigas. Muitas ideias do livro foram levadas ao público entre junho e julho de 2017 em performances teatrais que também funcionavam como cultos religiosos de inspiração neopentecostal.
O objetivo da autodenominada seita é aproximar-se de Deus através do humor, já que rir de tudo e de si mesmo seria a solução de todos os problemas. No princípio de cada culto/espetáculo, em vez de uma Palavra da Salvação, os membros se dedicam à leitura de uma Palavra da Gozação. Além das confissões públicas feitas pelos fiéis em tom de stand up, salmos tradicionais são subvertidos (“o humor é meu pastor, nada me irritará”) e os números musicais abundam através de paródias e recriações satíricas.
Conscientemente inspirada no tropicalismo antropofágico dos modernistas à Oswald de Andrade, a Deus é Humor já canonizou, além do próprio Oswald, a atriz e comediante Dercy Gonçalves. Chacrinha será o próximo. Algumas sessões foram dedicadas a ações sarcasticamente baseadas nas campanhas da fraternidade da Igreja Católica: “adote um fascista” e “adote um machista” são apenas duas que repercutiram na imprensa. O mais hilário, porém, foi quando a seita, numa evidente ridicularização da cura gay promovida por alguns pastores evangélicos, propôs uma tarde dedicada à cura hétero.
As coisas estão parecendo confusas?
Pois são mesmo.
Estamos diante do que exatamente? Teatro, vaudeville, micareta, carnavalização? Ou se trata de um projeto religioso de verdade? Para responder a pergunta, basta dizer que Cannito já registrou a Deus é Humor como marca religiosa. Amigos e colegas de trabalho declaram que ele sempre foi um “cara espiritualizado” e não duvidam de que seja capaz de levar a empreitada adiante. Muitas de suas declarações à imprensa deixam claro que, no meio da zoação, existe sim um propósito mais fundamentado de catequese.
Igreja é um lugar que você vai para perdoar Deus. Por isso estamos criando um ambiente onde se possa pensar em Deus sem culpa, sem inferno. Aqui não existe um Deus punitivo.
Newton Cannito
Onde vai dar isso?
Como diria o cartunista Carlos Ruas, também criador de uma religião paródica, a Igreja Batatista, “com Deus não se brinca”, mas a máxima também não pode ser levada a sério porque, na charge em que aparece, o divino velhinho está sozinho — e triste — na gangorra de um playground.
FONTE:>http://veja.abril.com.br
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