sexta-feira, 24 de maio de 2019

DELAÇÃO DO EX-PADRE WAGNER PORTUGAL IMPLICA A IGREJA CATÓLICA NA LAVA JATO Ex-braço direito do cardeal arcebispo do Rio vira delator e confessa participação em desvio de R$ 52 milhões

Ex-padre, Wagner Portugal virou delator e confessou corrupção em entidade ligada à cúpula da Igreja Católica que administra hospitais do Rio de Janeiro. Foto: Reprodução
Ex-braço direito do cardeal arcebispo do Rio vira delator e confessa participação em desvio de R$ 52 milhões
ÉPOCA
Um homem que durante anos foi braço direito do cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, admitiu participar de esquema de corrupção na Saúde do governo Sérgio Cabral e se tornou delator premiado. O ex-padre Wagner Augusto Portugal, um dos colaboradores da Operação S.O.S., desdobramento da Lava Jato no Rio, confessou sua participação no desvio de R$ 52 milhões dos cofres estaduais envolvendo contratos da Secretaria de Estado de Saúde do Rio com a organização social católica Pró-Saúde em 2013. Uma das linhas de investigação da força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) no Rio apura se parte dessa propina bancou despesas pessoais de sacerdotes.
O delator, diretor de Relações Institucionais e de Filantropia da Pró-Saúde, frequentava o Palácio São Joaquim, residência oficial de Dom Orani, e tratava o arcebispo com intimidade, chamando-o de “você” — muito distante do protocolar “Eminência” reservado aos demais cardeais. Afastado do sacerdócio pelo Vaticano por desobediência, a pedido do bispo de Juiz de Fora, Dom Gil Antônio Moreira, Portugal acompanha os passos de Dom Orani desde que ele foi eleito bispo da Diocese de São José do Rio Preto, em São Paulo, em fevereiro de 1997. A entrada de Wagner Portugal nos negócios com a saúde pública, de acordo com investigadores, ocorreu em Belém, no Pará, quando o cardeal atuava como arcebispo da capital paraense, entre 2004 e 2009. Apoiado pelo amigo, o ex-padre assumiu a gestão de seis hospitais públicos paraenses.
As investigações, conduzidas pelos procuradores da República da Operação Calicute, versão da Lava Jato no Rio, caminhavam em segredo até a terça-feira dia 26, quando o ex-governador Sérgio Cabral, em nova estratégia de defesa assentada na confissão, prestou depoimento ao juiz Marcelo Bretas: “Não tenho dúvida de que deve ter havido esquema de propina com a OS (organização social) da Igreja Católica, da Pró-Saúde. Não tenho dúvida. O Dom Orani devia ter interesse nisso, com todo respeito ao Dom Orani, mas ele tinha interesse nisso. Tinha o Dom Paulo, que era padre e tinha interesse nisso. E o Sérgio Côrtes nomeou a pessoa que era o gestor do Hospital São Francisco. Essa Pró-Saúde certamente tinha esquema de recursos que envolvia religiosos. Não tenho a menor dúvida”.
A força-tarefa da Lava Jato ainda busca conexões entre o dinheiro desviado e a vida pessoal de sacerdotes ligados à Pró-Saúde. As investigações apuram se compras de roupas, artigos religiosos, refeições e viagens aéreas, incluindo voos fretados, foram ou não pagas com dinheiro da corrupção. Não há indício até agora do envolvimento direto de Dom Orani no esquema, como insinuou Cabral, nem de que ele soubesse que suas despesas fossem bancadas por dinheiro desviado de contratos públicos.
Dom Orani Tempesta na Catedral Metropolitana do Rio. Mais de 20 anos de amizade com Wagner Portugal, ex-padre que confessou a participação em fraudes de mais de R$ 50 milhões. Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Uma das maiores entidades de gestão de serviços de saúde e administração hospitalar do país, a Pró-Saúde é sediada em São Paulo, mas os contratos com o Rio de Janeiro chegaram a representar 50% do faturamento nacional da entidade, que cresceu de R$ 750 milhões em 2013 para R$ 1,5 bilhão em 2015. Hoje, a organização tem sob sua responsabilidade mais de 2 mil leitos e o trabalho de cerca de 16 mil profissionais, sendo 2.900 médicos, atuando na rede do Sistema Único de Saúde.
A organização é comandada por uma diretoria estatutária, formada por cinco sacerdotes católicos liderados pelo bispo Dom Eurico dos Santos Veloso, e contrata diretores executivos para gerir as filiais regionais e os contratos com entes públicos. A organização se define como “alicerçada na ética cristã e na vasta experiência católica de trabalho social, voltada aos mais diversos públicos, nas mais distintas realidades”. “A Pró-Saúde prima pela valorização da vida e pela defesa das condições essenciais para o desenvolvimento das pessoas”, informa em seu site.
As investigações da Lava Jato contra a organização criminosa comandada por Sérgio Cabral desaguaram, no ano passado, na Operação S.O.S., que levou à prisão 21 pessoas, entre elas o ex-secretário de Saúde Sérgio Côrtes e os empresários Miguel Iskin e Gustavo Estellita. O objetivo da operação foi aprofundar a investigação sobre as fraudes ocorridas na Secretaria de Estado de Saúde do Rio com a contratação da Pró-Saúde, que administrou vários hospitais estaduais a partir de 2013, como Getúlio Vargas, Albert Schweitzer, Adão Pereira Nunes e Alberto Torres.
As investigações apontam que Iskin tinha influência tanto sobre o orçamento e a liberação de recursos pela Secretaria de Saúde quanto sobre as contratações pela Pró-Saúde, indicando empresas e fornecendo toda a documentação necessária, como cotações de preços e propostas fraudadas, para instruir o procedimento de contratação. Em contrapartida, Iskin cobrava a devolução de 10% sobre o valor dos contratos dos fornecedores da organização social, distribuídos entre os demais membros da organização criminosa, como Sérgio Côrtes e Gustavo Estellita.
Em denúncia encaminhada em outubro ao juiz Bretas contra 30 envolvidos, a força-tarefa relatou que a entrada da Pró-Saúde no estado do Rio foi arquitetada por Miguel Iskin, com aval de Côrtes. A denúncia imputa aos denunciados os crimes de quadrilha, organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, constrangimento ilegal com emprego de arma de fogo e corrupção ativa e passiva por fatos apurados nas investigações.
Um dos trunfos da investigação foi a delação de Wagner Portugal, reforçada pela colaboração de sua irmã, Wanessa Portugal, que morreu em janeiro passado, e de outros quatro delatores. Wagner e Wanessa, ambos advogados, mantinham em São Paulo, na época, um escritório que funcionava na prática como o departamento jurídico da Pró-Saúde. Eles detalharam o esquema de corrupção, que usava contratos fictícios de fornecimento e prestação de serviços para o desvio dos repasses do governo fluminense.
De acordo com uma das linhas de investigação, reforçada a partir da declaração de Cabral — “Dom Orani devia ter interesse nisso”, disse o ex-governador —, a Cúria Metropolitana pressionava o então secretário de Saúde Sérgio Côrtes a interceder pela liberação dos pagamentos à Pró-Saúde. No depoimento à Justiça Federal, Cabral também citou “Dom Paulo”, provavelmente se referindo a Dom Paulo Cezar Costa, ex-bispo-auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, um dos organizadores da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em 2013 e atual bispo diocesano de São Carlos, em São Paulo.
Conhecido como uma figura influente nos bastidores da Igreja Católica, com boa interlocução no mundo empresarial, Wagner Portugal era visto como o homem forte da Pró-Saúde, usando outros sacerdotes e executivos para conduzir indiretamente a entidade. Gostava de contar vantagem em público sobre a proximidade com políticos, autoridades e até sobre um grande trânsito junto à Fiesp. A família do ex-padre é formada por cafeicultores do município mineiro de Boa Esperança, a 295 quilômetros de Belo Horizonte, onde os Portugal cuidam de três fazendas.  

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